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Andreia eleita Miss Angola Supranacional. “Algumas crianças chamavam-me fantasma”

Andreia Muhito, de 22 anos, foi eleita Miss Angola Supranacional e quer aproveitar para fazer uma campanha contra a discriminação dos albinos no país.

Na escola, algumas crianças chamavam-lhe “fantasma”, por ter a pele tão clara. Agora, Andreia Muhito, de 22 anos, acabou de ser eleita Miss Angola Supranacional. Estudante no quarto ano do curso de Gestão e Turismo, a representante da província de Cuango-Cubango foi a eleita entre as oito concorrentes e vai disputar a final que se realiza a 7 de dezembro na Polónia.

Para já, Andreia Muhito ganhou cursos de língua inglesa e francesa, um tratamento dentário e um telemóvel. Mas também ganhou visibilidade e diz que vai aproveitá-la para trabalhar numa campanha contra a discriminação dos albinos. “Já passei por situações de constrangimento, por conta do meu tom de pele. Recordo-me que, quando mais pequena, aos nove anos, e frequentava o ensino primário, tive uma professora que me dizia que eu não podia frequentar uma escola normal. Chegava ao ponto de me pressionar, alegando que eu não estava em condições de frequentar o ensino normal”, contou em entrevista ao Jornal de Angola. “Felizmente, tive a sorte de não ter muitas dificuldades na infância, tendo em conta que não cresci em Angola. Ainda assim, enfrentei “bullying” na escola onde algumas crianças chamavam-me fantasma.”

Além destes episódios, diz, nunca teve constrangimentos que a afetassem de forma a derrubá-la: “Consigo enfrentar qualquer coisa, principalmente, em pleno século XXI, onde não deveria existir discriminação contra ninguém, quer seja pela cor da pele, quer pelo género ou orientação sexual. Acredito que Angola está pronta para dar este grande passo”.

Andreia Muhito, que já no ano passado tinha ganho o título de 2ª dama de honor no concurso Miss Cuando-Cubango, cresceu fora de Angola mas conhece os problemas que os albinos enfrentam no país: “Sei, por exemplo, que uma das dificuldades dos albinos prende-se com a falta do protetor solar, uma necessidade básica para quem tem a pele muito sensível. Infelizmente, este protetor é extremamente caro no mercado angolano. Além disso, normalmente, precisamos de ajuda para adquirir os cremes. Outra realidade dura que enfrentamos é a discriminação de amigos, colegas de escola e de trabalho e até mesmo dos empregadores. Há pessoas que não percebem muito bem essa questão do albinismo e os mitos tomam conta destas pessoas. Elas acreditam que, se empregarem alguém com albinismo, podem ter má sorte e uns creem que um encontro entre albino e gémeos resultaria em conflito. São mitos que estão à nossa volta e não permitem uma convivência normal na nossa sociedade.”

Em países africanos como a Tanzânia, o Malawi e Moçambique, partes do corpo da pessoa com albinismo são usadas em rituais difundidos pela crença popular para atrair sorte. A situação chegou a merecer, em 2016, uma menção do então secretário-geral das Nações Unidas Ban Ki-moon que apelou ao fim da discriminação contra os albinos em África. Mas em Angola, de acordo com a Associação de Apoio de Albinos do país, não há queixas desta natureza. No entanto, os albinos angolanos ainda são alvo de discriminação e enfrentam dificuldades de integração na sociedade: têm mais dificuldades em conseguir emprego e, às vezes, não são atendidos nos hospitais.

Ao Jornal de Angola, a modelo diz que gostava “de ver mais pessoas com albinismo destacadas na sociedade”. E acredita: “Devemos aprender a contribuir para a elevação da autoestima das pessoas, para que se sintam amadas e inseridas na sociedade, dando-lhes a oportunidade de mostrar o seu real potencial.”

Ela vai continuar a lutar pelos seus sonhos: “O meu maior sonho é ser uma modelo internacionalmente reconhecida, fazer publicidades e desfilar para grandes nomes do mundo da moda. Também gostava de ser uma atriz. Considero-me uma pessoa amante das artes e palcos. Enquanto estive no ensino médio, sempre participei das peças teatrais. Gostava imenso de estar no palco e influenciar pessoas contando histórias.

O concurso organizado pela empresa World Beauty Association (WBA), conta com a participação de mais de 80 candidatas de vários países, que competem todos os anos pela coroa do Miss Supranational, considerado um maiores concursos internacionais de beleza feminina, depois do Miss Universo e do Miss Mundo. A coreana Jenny Kim, eleita a 1 de dezembro de 2017, é a atual detentora do título.

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