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Braga, o novo eldorado dos brasileiros

A violência e a criminalidade no Brasil já galgaram os muros das grandes cidades daquele país, pelo que muita gente não vê alternativa a emigrar. Em Portugal, o novo eldorado dos brasileiros é Braga. “Uma cidade pequena, com aspeto de grande”, dizem os que já cá estão.

Luciano e Mônica Blandy já tiveram que se proteger num armário, enquanto ouviam fogo cruzado na rua, à conta de um assalto. André e Luíz viram um amigo agredido numa festa por ser homossexual. Cláudia e Jorge viveram sempre com grades nas janelas de casa e sem exibir telemóveis na rua. Perante este cenário, milhares de pessoas não veem outra alternativa senão fazer as malas e partir. Braga está em alta como destino.

As imagens de uma cidade bonita e dinâmica chegam ao Brasil através das redes sociais e, fundamentalmente, são partilhadas por brasileiros que já fazem da cidade dos arcebispos a sua casa. São eles os primeiros a incitar à vinda dos compatriotas para Braga e os responsáveis por, desde há dois anos, a cidade receber “um afluxo normal de imigrantes” dessa nacionalidade. Quem o diz é Luís Pedroso, presidente da União de Freguesias de Maximinos, Sé e Cividade, a única do concelho que tem um gabinete de apoio à imigração, através do Centro de Apoio Social e Familiar, coordenado por Cristina Furbino.

De acordo com o último relatório do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, 85 426 brasileiros tinham morada em Portugal, em 2017. Em Braga, a estimativa aponta para cerca de 30 mil residentes. “Há 1194 inscrições de brasileiros na Universidade do Minho , para fazer mestrado, doutoramento e pós-doutoramento no próximo ano”, acrescenta Cristina Furbino, alertando, contudo, que o número poderá diminuir, porque há bolsas de estudo que podem não se concretizar e assim travar a chegada de investigadores.

Um problema que não afeta André Souza, um dos mais recentes imigrantes. Chegou com Luiz, o marido, há três meses, como turista, mas entretanto conseguiu inscrever-se no mestrado em Economia Social na UMinho. “Há muitos brasileiros a colocar vídeos na internet sobre a cidade e, então, começamos a pesquisar sobre ela. Quando chegámos a Portugal, alugámos alojamento no Porto, mas depois de uma visita a Braga, acabamos por gostar mais. É uma cidade mais tranquila”, conta Luiz, formado em gastronomia.

O casal vivia no estado de Paraná, que até era considerado um dos mais seguros no Brasil. “Ultimamente, já não sentíamos isso. Todos os dias ouvíamos falar de assassinatos, de alguém que levou um tiro ou uma facada”, recorda Luíz, ao mesmo tempo que avança com dados dramáticos: “Por causa da orientação sexual, uma pessoa morre a cada 19 horas”.

Braga tem um povo muito acolhedor, boas infraestruturas e rendas mais baratas do que no Porto ou Lisboa

Aqui, o casal ainda não sentiu qualquer preconceito. E ficou impressionado pelo facto de, numa festa com milhares de pessoas como o São João, não ter assistido “a uma briga sequer”.

Para Cláudia, que chegou com o marido e dois filhos, é “incrível” poder atender chamadas na rua. Ou “deixar o filho sair e não ficar preocupada”. Esperaram anos por isto. “Fui polícia durante 29 anos. Então, costumamos dizer que, quando conseguimos a reforma, temos que fugir para Portugal. Os polícias lá são caçados, mesmo os reformados”, conta Jorge, que viu em Braga “um povo muito acolhedor, boas infraestruturas e rendas mais baratas do que no Porto ou Lisboa”.

“Em Braga, os brasileiros encontram paz, podem andar à vontade na rua e têm tudo à mão de semear. É uma minimetrópole que tem qualidade de vida. Eles vêm à procura disso e da segurança”, resume Luís Pedroso, que através do gabinete da Junta tenta ajudar no processo de regularização destes imigrantes. Concretamente, o autarca diz que 40% chega com uma “boa retaguarda financeira”. “Há 30% que vem com formação académica e outros 30%, indiferenciados, que vêm a pensar que Braga é o eldorado e acabam em dificuldades”, contabiliza.

Só os preços das rendas de casa assustam os imigrantes. Alguns dizem que “é maluqice”

Uma das queixas generalizadas é o preço das rendas. Se o custo de vida se assemelha ao Brasil, o valor dos arrendamentos “é uma maluquice”, diz Luciano, que chegou com a mulher, Mônica, e a filha, Júlia, em março do ano passado, “ainda na transição de preços”. “Agora, há gente a pedir 800 euros por um T2”, critica.

Para Tharcila e o marido Eduardo foi uma dor de cabeça encontrar escola para a filha, Maria Eduarda, mas também uma casa para morar. A empresária, dona da Thaci Bitencourt Party Planner, acredita que “os alugueres dispararam com esta enxurrada de brasileiros”.

O diretor-geral da Associação Comercial de Braga tem o mesmo entendimento. Rui Marques diz que “a chegada de brasileiros com poder de compra mexeu com o mercado imobiliário”. Mas, por outro lado, também dinamizou o comércio. “Temos sentido volume anormal de empresários brasileiros que pedem informação sobre como implementar negócios”, afirma o responsável, sublinhando que há, inclusive, quem tenha ambição de entrar com uma posição em empresas que precisem de injeção de capital. “Não se focam só em negócios de restauração ou retalho”, elucida.

É revoltante ver gente a dar informação errada, cobrar por coisas que se resolvem de graça e incentivar de forma criminosa as pessoas a virem para cá

O emprego é outro entrave. Depois de ter explorado um café, Luciano decidiu fechar o negócio para ter “qualidade de vida”, aquilo que veio à procura em Portugal. Era advogado no Brasil, mas acabou por aceitar um lugar como operário numa multinacional. “Para emigrar, temos que estar dispostos a começar de novo”, sentencia.

O imigrante alerta, ainda, quem chega para não cair em esquemas de alguns grupos nas redes sociais e associações de compatriotas. “É revoltante ver gente a dar informação errada, cobrar por coisas que se resolvem de graça e incentivar de forma criminosa as pessoas a virem para cá”, atira.

Em concelhos vizinhos como Guimarães e Famalicão, também já se nota a crescente presença de brasileiros.

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