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“Deixem os emigrantes em paz”

Os emigrantes são das pessoas mais corajosas, autónomas e resilientes de Portugal. No entanto, são muitos os comentários e os posts maldosos nas redes sociais sobre os que nos visitam em Agosto. Vamos calçar os sapatos do outro.

Chegou Agosto, o calor e as férias. Chegaram, também, os emigrantes portugueses e os comentários e posts maldosos nas redes sociais sobre os mesmos.

Antes de mais, penso que é importante elucidar: o que é a migração humana? A migração humana é o movimento (temporário ou definitivo) de pessoas dentro de um país ou entre países. E por que é que as pessoas se movem? Porque compreendem a migração como uma melhor oportunidade procedente de factores ambientais, económicos e políticos para o seu bem-estar. E é isto mesmo que acontece com os nossos portugueses que emigram: vão para um outro país procurar o que acham que são melhores condições para viver.

Ao longo do meu trabalho de investigação com emigrantes portugueses e as suas famílias, tive a oportunidade de conhecer muitos destes percursos de resiliência e adaptação. Estamos a falar de pessoas que, como muitos de nós que vivem em Portugal, planeiam a sua vida profissional, familiar, social e amorosa com as pessoas que estão à volta. No entanto, o contexto pregou-lhes uma partida: ou não tinham empregos decentes (ou nenhuns mesmo), ou a formação académica e o respectivo financiamento não eram suficientes para os seus projectos de crescimento profissional ou, genericamente, a sociedade portuguesa não estava lado a lado com o que precisavam para crescimento e estabilidade ao longo da vida.

“Estes emigrantes, que muitos satirizam pelos seus carros XPTO ou pronúncias que bailam entre o português e os inúmeros estrangeirismos, são pessoas que têm a abnegação de deixar o seu ninho de conforto e explorar o mundo com a intenção de crescer conjuntamente com quem cá fica. ”
Assim, estas pessoas decidiram ultrapassar fronteiras, línguas e culturas diferentes com uma finalidade: tentar ser feliz. Parece um acto isolado e de uma espécie de narcisismo, por ir e deixar tudo? Não, de todo! Muitos destes emigrantes fazem-no não só para o seu bem-estar, mas em muitos dos casos para ajudar quem cá fica: as suas famílias e os seus amigos.

Estes emigrantes, que muitos satirizam pelos seus carros XPTO ou pronúncias que bailam entre o português e os inúmeros estrangeirismos, são pessoas que têm a abnegação de deixar o seu ninho de conforto e explorar o mundo com a intenção de crescer conjuntamente com quem cá fica. E veja-se que não falo apenas da ajuda financeira que prestam, falo também do enorme contributo que é tornar a sociedade portuguesa mais intercultural.

Por isto, é importante relembrar que os emigrantes são cidadãos portugueses com os mesmos direitos e deveres, com a particularidade de que se autonomizaram de tal forma que atravessaram sozinhos muitas das linhas do conforto, estão a investir dinheiro privado, fruto de trabalho árduo ao longo do ano, e voltam nas férias ao país que nem lhes conseguiu (muitas vezes) dar condições suficientes para serem felizes. Porque o que lhes importa, na verdade, são os bons momentos que vivem cá com as pessoas e os sítios de que gostam.

Vejamos os emigrantes, não de uma perspectiva de exibicionismo de carros, de bens, mas de uma perspectiva de pessoas extremamente resilientes que estavam no lado de cá, como nós, até que um dia tudo mudou e precisaram de explorar novas formas de ser feliz. Estas são pessoas que nos podem ajudar a viajar sem sair de Portugal, já que as experiências de inter e transculturalidade se tornam, sem dúvida, nas melhores aprendizagens que podemos ter para ver o mundo com a noção de que temos sempre muito mais a aprender e viver.

Boas férias a todos/as.

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