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O príncipe que quer comprar a Comporta

Em vez de imobiliário em betão, o aristocrata francês Louis-Albert de Broglie quer desenvolver na Comporta quintas de agricultura biológica, eco-hotéis, espaços de arte, conferências, reciclagem ou educação. “Não podemos repetir erros, é urgente refazer a Comporta com um projeto ao serviço do território e da população”, defende.

Anda descalço pela propriedade com a desenvoltura de quem está familiarizado com a terra. O aristocrata francês Louis-Albert de Broglie vai à Comporta há 25 anos e tem lá uma casa onde faz permacultura de tomates e outras espécies em improváveis terrenos arenosos. Recentemente, avançou uma proposta de compra da vasta propriedade da família Espírito Santo que está em processo de venda. O seu objetivo é “desenvolver um projeto para as pessoas da Comporta, a gente das aldeias, para dar economia ao território e trabalho às pessoas que aqui vivem”, garante.

“É urgente refazer a Comporta com um projeto ao serviço do território e da população”, sustenta o príncipe francês – que é filho do duque de Broglie, que foi ministro de Charles De Gaulle. Lembra que o colapso dos anteriores proprietários, a família Espírito Santo, “foi uma humilhação para as pessoas da vila, houve coisas que não foram pagas, gente que perdeu dinheiro. Depois deste trauma, não podemos dar à população da Comporta a punição do betão”.

Frisa mesmo que é “uma responsabilidade de Portugal ter um projeto nacional para refazer a Comporta. O mundo inteiro quererá vir aqui, ver como se faz um bom projeto com ambições sociais, ambientais e culturais, com agricultura biológica e de baixo carbono”.

Fervoroso defensor da natureza e da biodiversidade, Louis-Albert de Broglie tem um projeto para a Comporta de não vai além de 15% do desenvolvimento turístico-imobiliário já aprovado para a ADT2 e a ADT3 (as áreas de desenvolvimento turístico que estão em processo de venda, com 365 hectares e 551 hectares, respetivamente).

O seu projeto passa por desenvolver nestas áreas da Comporta sete centros eco-turísticos, cada um dos quais dedicados a áreas como produção agro-florestal e permacultura, incubação de startups que transformam a agricultura em comida saudável, medicina reconectiva, uma ‘Blue School’ (ensino alternativo de reconexão com a natureza), conferências (“sobre temas apaixonantes como o mar ou a alimentação”), arte (com um museu em forma de Arca de Noé) ou reciclagem (por exemplo, incorporando velhas redes de pescadores no fabrico de material da Adidas).

O plano do príncipe diverge em muito do que estava na mira dos anteriores promotores da Comporta. Na zona do lado de Alcácer do Sal onde o grupo Espírito Santo planeava criar 1553 residências, apartamentos ou quartos de hotel, além de um segundo campo de golfe, o principal foco do aristocrata é fazer 30 quintas com três hectares cada, com agricultura biológica e atraindo proprietários “que podem ser portugueses ou estrangeiros com dinheiro, mas partilham o interesse em investir preservando a singularidade do território”.

“Vai haver gente a trabalhar nas quintas, pessoas que estudam nos centros de investigação, pessoas que transformam os alimentos, pessoas que vêm às conferências, pessoas do mundo inteiro vão querer vir à Comporta estudar, trabalhar, ou ficar uma semana”, antevê. “Para mim, o poder deste projeto é trazer economia às pessoas do território. De um lado há as pessoas da terra, do outro os ricos que chegam, e essa é a beleza da vida e também o princípio da permacultura, em que todos trabalham em conjunto”, salienta o aristocrata.

Este seu projeto designa-se Utopia, mas, como frisa o príncipe, “utopia, segundo Víctor Hugo, é o futuro do amanhã”. Com uma carreira feita na banca (no BNP Paribas) e liderando um grupo com negócios em todo o mundo (o Deyrolle, parceiro da UNESCO e da COP21), Louis-Albert de Broglie garante ter os pés assentes na terra e que o seu projeto para a Comporta é “para dar dinheiro”. Não com “uma visão especulativa“, mas criando “externalidades positivas a vários níveis, com inteligência e ‘savoir-faire’, e beneficiando o emprego local”.

No projeto para a Comporta, o príncipe francês tem como parceiros de referência o fundo Global Assets Capital e o Golf & Country Club de Bonmont, adiantando poder trazer dezenas de outros investidores com quem trabalha, e que “partilham o mesmo interesse pelo futuro e por preservar os territórios sustentáveis”.

“Não é chegar e fazer betão. Se não se cria trabalho, as pessoas vão-se embora, deixam o campo e a agricultura desaparece, é a desolação. Na Comporta não se podem repetir os erros do Algarve, França ou Espanha”, sustenta Louis-Albert de Broglie, advertindo que “se em vez de um exemplo se fizer na Comporta um contraexemplo, com imobiliário turístico por todo o lado, vai ser um inferno”. E dá o exemplo do projeto da Herdade do Pinheirinho, no concelho de Grândola, “que está fechado, tem um golfe e 300 casas que nunca abriram e não há ninguém que compre, não há lá comércio, agricultura ou escolas, não há nada. Um desastre total, e no plano ecológico é catastrófico”.

Ao contrário, a Comporta representa “uma oportunidade para Portugal estar à frente no tempo e fazer um projeto que faz do local um laboratório e um modelo para o mundo”, garante Louis-Albert de Broglie, lembrando que “hoje o desenvolvimento já não passa por fazer grandes cidades com arranha-céus, não faz mais sentido fazer isto porque não traz a economia que a população precisa”.

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