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“Um milagre” na gruta. Após alta, rapazes e treinador falaram ao mundo

Os rapazes resgatados de uma gruta tailandesa já tiveram alta hospitalar e, esta quarta-feira, deram a tão esperada conferência de imprensa. Falaram ao mundo sobre o que viveram e do que agora querem viver, mas também do “milagre” que lhes permitiu sair da gruta.

Até ao último deles ser resgatado, foram 18 dias de ‘prisão’ na gruta de Tham Luang, na Tailândia.

O mundo acompanhou em suspense a difícil operação de resgate que permitiu aos 12 jovens e ao seu treinador de futebol saírem em ‘liberdade’. Agora, e depois de toda a incerteza e dificuldades que viveram, a equipa de futebol tailandesa dos Wild Boars teve finalmente alta hospitalar.

E, logo após a saída do hospital, o mundo pôde ver de novos os rapazes,numa conferência de imprensa muito aguardada que ganhou atenção internacional. O Notícias ao Minuto também os ouviu.

Eis as palavras dos Wild Boars, a equipa de futebol de ‘estrelas’ tailandesas que, mais do que marcar golos, encantou o mundo com o seu espírito de sobrevivência. Saliente-se que as perguntas hoje colocadas foram previamente analisadas por psiquiatras, para garantir o bem-estar dos rapazes numa altura em que estão ainda a regressar à vida normal.

Após o resgate, só agora é que os 12 rapazes e o treinador começam a perceber a dimensão da sua história, não só na Tailândia mas também a nível mundial. À medida que seguiam para a sala de imprensa, os rapazes passaram por um ‘batalhão’ de jornalistas que esperava para os ver e ouvir. A equipa chegou vestida a rigor, cada um com o seu número de jogador nas costas.

“Estão prontos para ir para casa”, começou por dizer o responsável médico do hospital onde os rapazes foram acompanhados desde que abandonaram a gruta. Os rapazes estão também de “boa saúde” física e mental, e a recuperar peso.

Antes de os rapazes falarem, também a psicóloga assegurou que a recuperação tem sido positiva. “Eles são mentalmente fortes” e têm uma mentalidade positiva. “Estamos preocupados com a vida agora fora da gruta mas há uma preparação que se pode fazer” e “os jovens têm manifestado essa vontade de se prepararem”, explicou.

Após um início de conferência ainda com declarações dos profissionais que os têm acompanhado, foi a vez de os rapazes, finalmente, se apresentaram ao mundo. Um a um, a começar pelo treinador Ake, cada um se levantou, dando o seu nome e explicando a posição em que joga em campo. O gesto, de cada um se levantar e se apresentar, foi também uma forma de mostrarem que estão a recuperar bem.

De seguida foi a vez de mergulhadores se apresentarem, com um deles a arrancar gargalhadas da plateia ao declarar que “era o mais bonito” da gruta, segundo a tradução simultânea na BBC.

Sobre o tempo na gruta, um dos rapazes recordou a surpresa quando os primeiros mergulhadores chegaram ao local onde estavam. Só conseguiu dizer “olá”, explicou, acrescentando que foi “um milagre” terem chegado até eles. É Dul quem nos conta esta história.

Num primeiro momento, os rapazes começaram por ouvir vozes mas nem acreditavam. Foi então que os mergulhadores estrangeiros surgiram. Os rapazes contam que estranharam que os mergulhadores não falassem tailandês. O mergulhador perguntou quantos estavam com Dul. “13”, respondeu o rapaz. “Brilhante”, respondeu o mergulhador. Era sinal de que estavam todos juntos.

A conferência prosseguiu, com uma das perguntas a versar sobre a final do Mundial’2018. Os rapazes tiveram oportunidade de ver o jogo, com um deles a descrever que ficou muito feliz porque o seu jogador favorito “marcou um golo”. Falava de Griezmann, este apoiante da França, que acrescenta que muita gente estava a torcer pela Croácia, que acabou por perder a final contra a França (4-2). Entre os rapazes, porém, “a maioria torceu pela França”, adiantou Ake, o treinador dos jovens.

Os rapazes recordam também os primeiros momentos. Um fala sobre ter acreditado desde cedo que iam recuperar, outro lembrou a importância de serem pacientes e de se manterem motivados, outro conta que pensou simplesmente que “não se deviam ter perdido”, enquanto outro, dos mais novos, admite agora, bastante divertido, que pensou que a mãe ia ralhar com ele por estar a demorar demasiado tempo a voltar para casa.

Ake, o treinador, esclarece que todos os rapazes sabiam nadar e que todos concordaram ir na expedição. Ao início, ainda pensaram que poderiam regressar, mas não se aperceberam de até que ponto as águas podiam subir no interior da gruta. Ake contou também como se prepararam para dormir na gruta na primeira noite. O nível da água deveria de descer, pensavam. Naquela altura, a comida não era ainda a preocupação que viria a ser.

Após os primeiros dias, a fraqueza começou a fazer-se sentir. Era uma questão de fome. Agora já sorridente, um dos rapazes conta que na altura tentavam “nem pensar em comida”. O treinador explica que procuraram por água nas paredes da gruta. “Era água potável”. Mas ali dentro só tinham água para beber e nada de comida. O que pensaram quando estavam com fome? “Arroz frito”, responde um do rapaz, provocando risos na sala.

Confirma-se que a possibilidade de furar paredes da gruta esteve em cima da mesa. No que a comida diz respeito, foi um mergulhador britânico o primeiro a chegar com novidades para o estômago destes rapazes.

Ali na gruta, contaram, os rapazes iam tentando ocupar o tempo, por exemplo a jogar damas. Um dos mergulhadores seria mestre no jogo. Tornou-se ‘rei da gruta’. Todos juntos, a dormirem e a viverem no mesmo espaço, foi um espírito de “família” o que se fez sentir na gruta entre os jovens. Um espírito de família que, pelo que descrevem, passou a incluir os mergulhadores que contactaram com eles antes e durante o resgate.

O treinador volta a dar voz em nome do grupo, agora pelo mergulhador da marinha tailandesa que morreu no resgate. Houve “choque” e a sensação de que tinha sido por “culpa” deles que o mergulhador perdeu a vida. Mas é esta capacidade de arriscar a vida pelos outros que é também elogiada pelos rapazes. Juntos, escreveram uma carta para a família do mergulhador falecido. O número 7 da equipa, um dos mais pequenos, leu parte da missiva dando conta das condolências de todos para os familiares do mergulhador que deu a vida para os tentar resgatar.

Após relatos sobre a experiência, os rapazes falam do que aí vem. “Dar mais valor à vida” é uma das frases. Um rapaz espera fazer o bem pela sociedade. O treinador Ake realça a importância de pensar nas atividades e agradece a gentileza de todos.

“Temos de pensar antes de fazer as coisas. Porque se não pensamos há consequências”, diz outro, que acrescenta que a partir de agora quer viver a sua vida “ao máximo”.

São também curiosas as respostas que surgem sobre o futuro. Quase todos querem ser jogadores profissionais de futebol Há também os que querem ter curso superior… além de ser profissionais de futebol. Entre os rapazes há um que diz que quer ser da marinha, como os mergulhadores que os salvaram.

Surge então a pergunta sobre se, depois desta experiência, há rapazes a quererem ser mergulhadores. Entre os rapazes surgem alguns braços no ar. São quatro, no total, os que depois do resgate querem ser mergulhadores. É um destes rapazes que levantou o braço que diz de seguida: “quero ser jogador de futebol… e mergulhador”.

Entre as preocupações na cave, e com a conferência de imprensa a aproximar-se do fim, houve um rapaz a arrancar mais gargalhadas da plateia, tudo por causa do que o apoquentava: “os trabalhos de casa. A minha professora tinha mandado muitos trabalhos de casa”, queixa-se.

Questionados sobre se voltariam à gruta, um dos rapazes apressa-se a dizer que não. O treinador, algo renitente, diz que seria capaz de voltar. Mas desta vez com guia.

Os rapazes pedem também desculpa aos pais por tantas preocupações dadas. Alguns deles admitem que mentiram aos pais. Disseram-lhes que iam só jogar futebol e não que iam a uma gruta. “Quero pedir desculpa aos meus pais” tornou-se, rapidamente, uma das frases mais repetidas na conferência.

Já a fechar, um apelo da responsável pelo acompanhamento psicológico: “deem-lhes tempo” mas também espaço neste regresso à normalidade. “São bons miúdos” e têm “objetivos para a vida”, mesmo sendo novos. São pontos a favor, explica-se. O importante, agora, “é voltar à sua vida normal”. A bem do seu desenvolvimento.

Das autoridades tailandesas, surge também o agradecimento ao mundo pelo acompanhamento e todo este processo, que implicou uma equipa de vários países a planear e executar o complex (e bem sucedido) plano de resgate.

No final, um último momento, mais espiritual, encerrou esta conferência de imprensa, com toda a equipa junta ajoelhada numa oração em tributo à memória de Saman, o mergulhador que morreu por eles.

De seguida, ouviram-se aplausos a ecoar pela sala. Os rapazes, que ao longo da conferência de imprensa mostraram aquele nível de proximidade que se nota quando terminam as frases uns dos outros, juntaram-se todos para uma última fotografia, ali alinhados como uma equipa de futebol antes de uma partida começar.

A grande partida da vida deles foi jogada nas últimas semanas e sobreviveram. Este é o momento em que se despedem para finalmente poderem voltar para casa.

Uma semana após o resgate, os rapazes tiveram alta.

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