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Uma morte e um internamento depois do regresso da RCA

Dois casos com militares regressados da República Centro-Africana recolocam a questão do stress pós-traumático de guerra nas fileiras e do nível de apoio psicológico a quem regressa.

Dias antes antes do aparente suicídio de um soldado dos Comandos, na sexta-feira, um militar da Força Aérea chegado há poucas semanas da República Centro-Africana (RCA) foi internado num hospital psiquiátrico.

Fonte oficial da Força Aérea confirmou o caso, ocorrido no norte do país, escusando-se contudo a dar quaisquer pormenores.

Mas sem saber se há algum nexo de causalidade com a presença na RCA no caso do sargento da Força Aérea, ou se a morte do soldado comando, regressado há meio ano daquele teatro de operações, foi um suicídio, as duas situações evocam os impactos na saúde mental – leia-se stress pós-traumático de guerra – que afetaram muitos soldados envolvidos na guerra colonial, bem como a longa polémica que rodeou o reconhecimento oficial dessa realidade e as respetivas respostas institucionais.

A verdade é que devido ao grau de violência desta missão das Nações Unidas na RCA, relativamente aos riscos e à tensão das operações nos Balcãs ou mesmo no Afeganistão, fontes militares ouvidas admitem um recrudescimento no número de militares com problemas psicológicos daí decorrentes.

A verdade é que “já não temos missões destas desde 1974”, alertou uma alta patente, reconhecendo que a “falta de experiência” a esse nível desde o fim da guerra colonial justifica analisar se o que se está a fazer “é adequado e suficiente”.

O tenente-coronel Garcia Lopes, chefe do Núcleo de Apoio e Intervenção Psicológica (NAIP) do Centro de Psicologia Aplicada do Exército (CPAE), confirma que “os stressores e o impacto” da missão na RCA registados em agosto de 2017 – no final da primeira missão na RCA – “aconselhavam um aumento da preocupação e preparação do regresso dos militares a casa”.

“Este processo de apoio psicológico está em contínua melhoria” e refletiu-se na abordagem do CPAE durante os três períodos de seis meses que envolvem o empenhamento das Forças Nacionais Destacadas (FND): preparação, estada no terreno e regresso. Agora “estamos a reforçar” o envolvimento dos psicólogos militares junto das Forças Nacionais Destacadas (FND), incluindo no Afeganistão e no Iraque, indica o oficial.

Este psicólogo militar está na Madeira para acompanhar a família do soldado comando Luís Miguel Lima, que aparentemente se suicidou na sexta-feira no quartel da Carregueira com uma espingarda automática do militar que estava de serviço na zona do paiol do regimento.

Note-se que a última FND na RCA regressou a Portugal no dia 6 deste mês, tendo estado diretamente envolvida em quase duas dezenas de combates, exemplificou um dos oficiais.

Saber se as FND devem integrar psicólogos em permanência, a exemplo do que ocorre com médicos e enfermeiros, é uma das questões que se colocam. “É uma excelente pergunta”, responde Garcia Lopes, alertando para as restrições financeiras e a dimensão do quadro de técnicos que podem justificar essa situação – que nunca ocorreu desde 1996, quando Portugal voltou a enviar contingentes militares para missões no exterior.

Primeiros socorros psicológicos
Com um quadro de 25 elementos, dos quais 15 psicólogos e três sociólogos, o CPAE “está preparado” para lidar com os efeitos das missões na saúde mental dos militares, assegura o chefe do NAIP.

“Os que temos para responder às atuais necessidades são suficientes”, sublinha Garcia Lopes. “Não só em termos de resolução de situações mas, sobretudo, na ação preventiva”, pois “quanto mais formação, preparação e acompanhamento” tiverem os militares, mais aptos ficam para lidar com fatores de stress acrescidos como os que se registam na RCA.

O NAIP – formalmente criado em 2011 – está em alerta 24 horas, com um psicólogo militar pronto a responder aos contactos oriundos das diferentes FND e dos elementos destacados no exterior, como também em Portugal e incluindo famílias – com o envio de equipas em caso de necessidade.

Nos teatros de operações, a resposta presencial envolve as chamadas “equipas de primeiros socorros psicológicos” preparadas dentro de cada FND, explica Garcia Lopes.

Essas equipas que envolvem “10% a 15%” dos efetivos da FND, a quem é dado um curso complementar à formação genérica dada a todo o contingente sobre “os stressores mais comuns” nessas missões, desde a gestão de stress e de conflitos à prevenção do suicídio, perturbação do sono, abstinência sexual ou abusos sexuais – havendo ainda informação específica para as mulheres, assinala o psicólogo militar.

Mas a “última grande atividade” na fase de preparação psicológica e emocional de uma FND é o curso de primeiros socorros psicológicos. Trata-se de “dar competências aos militares na identificação de sintomas que demonstrem alguma perturbação num camarada” e, depois, sobre “como conseguir fazer intervenção” local, refere o especialista.

“Durante o cumprimento da missão fazemos acompanhamento à distância, por videochamada, videoconferência, telefone, mail, para o comandante da força, com os elementos da equipa sanitária (médicos e enfermeiros) e de primeiros socorros psicológicos”.

Mas, adianta o psicólogo militar, “se necessário, e já aconteceu, fazemos acompanhamento por videochamada com casos acompanhados em teatro” e onde é possível complementar a ação daquelas equipas – e, em casos que o justifiquem, pode ser enviada uma equipa especializada para o local.

Após o regresso dos operacionais a Portugal, acrescenta o tenente-coronel Garcia Lopes, o CPAE – em ligação com o Hospital das Forças Armadas – faz acompanhamentos individuais nos casos que o justifiquem. Em relação aos restantes militares, é-lhes dada informação de apoio (e aos familiares) complementada com “o reforço dos contactos” do NIAP.

Garcia Lopes afasta, no entanto, qualquer paralelismo entre a realidade atual e a da guerra colonial em matéria de saúde mental entre os soldados vindos da frente de combate: “São tempos diferentes, homens diferentes, teatros diferentes, experiências diferentes.”

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