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Angola : A aldeia de 69 bruxas e 14 feiticeiros

Ali à volta, pela terra e pelos ares, MiGe mísseis soviéticos, aliados do MPLA e cubanos, contra tanques Oliphant e artilharia dos aliados Unita e sul-africanos… Ali, a dois passos da mais sofisticada batalha que África conhecera, a aldeia dos amaldiçoados, todos acusados de bruxaria.

Em 1988, andei com um grupo de guerrilheiros da Unita, tipos que obedeciam ao simples gesto do capitão, espalhavam-se pela anhara quando a mata os deixava expostos, voltavam a reunir-se quando a floresta os resguardava, faziam fogueiras fundas sem que a noite as denunciasse e engraxavam as botas quando entravam nas aldeias para impressionar os sobas… Andei seis semanas pelas terras do leste angolano, a guerra civil grassava e iria ainda continuar por década e meia. Há 30 anos, a região, das Terras do Fim do Mundo, no sul profundo, às montanhas de Malanje, já no norte, era controlada pelas tropas da Unita, que faziam gala em mostrar ao repórter que pelo menos parte do país era delas.

Mesmo quando os vi a ajudar no cerco do Cuemba e fomos bombardeados por rockets dos órgãos de Estaline que protegiam a vila sitiada, os meus trinta companheiros fizeram questão em manter-se tesos e ordeiros. Nesse caso, talvez, nem tanto para impressionar o jornalista mas por ser o jovem general Ben Ben, sobrinho de Savimbi, quem comandava o ataque. Também eram bons soldados quando entrámos em Munhango, antiga oficina dos Caminhos de Ferro de Benguela, conquistada, perdida e reconquistada várias vezes – tantos caixões por um berço, pois fora lá que Savimbi nascera -, com mangueiras e abacateiros de onde pendiam frutos verdes e outros mirrados, juntos porque não havia ninguém para os colher… Pisando chão com minas plantadas, de uns e de outros, em sucessivos mapas já esquecidos, nem aí, dentro do terror silencioso de uma vila fantasma, senti temor nos meus efémeros companheiros.

Mas um dia, já em fim de viagem, vi-os abanar a cabeça, estalar um protesto, fingir uma pequena fuga, corrida, cobarde: não iam! Eram só precisos dois, em zona completamente controlada, era só levar o jornalista a uma dúzia de quilómetros adiante. Mas não iam. Foi necessário o general Bock, baixinho e com um coto em vez da mão esquerda, destino comum dos especialistas em explosivos, desatar à bofetada com a única mão boa para encontrar uma dupla de “voluntários”. Os dois homens que semanas antes, enquanto eu me lavava, guardavam-me gentilmente dos jacarés, com espingardas automáticas apontadas aos rios Cuando e Lungué-Bungo, amarraram a cara quando subiram para o camião e assim ficaram até me deixarem no destino: a aldeia dos amaldiçoados. Eu ia falar com uma multidão de bruxas e feiticeiros. E os dois guerrilheiros ficaram no carro, tremendo.

Semanas antes, quando eu subia da Jamba, capital recuada da guerrilha, protegida pelos sul-africanos (ainda os do apartheid), perto da fronteira com a Namíbia, parei já em zona de guerra, em Mavinga. No vizinho Cuito Cuanavale, acabara semanas antes, em março, a mais poderosa batalha em África desde que o Afrika Korps de Rommel combateu os britânicos em Al-Alamein, na II Guerra Mundial. De um lado, governamentais de Luanda e seus aliados cubanos; do outro, que eu reportava, a Unita e os aliados sul-africanos. MiG, mísseis soviéticos Sam-13, com radares P-19 e tanques T-55, defrontando artilharia sul-aficana G-6 com alcance de 25 milhas e tanques Oliphant… Eu só estava de passagem e, em Mavinga, o general Altino Sapalalo, dito Bock, nome de guerra, convidou-me para ficar no seu bunker, cavado no chão.

Ele era de Malanje, de tu fácil e simpatizou com o angolano branco. Contou-me a sua juventude de negro mais graduado na Mocidade Portuguesa e inveterado farrista: “Tive namorada preta, cafusa, mulata, cabrita e branca”, em conversa por noite fora gabou-se da paleta feminina da nossa terra. Fui deitar-me e de madrugada – mal dormida porque eu espiava escorpiões que não existiam – aconteceu-me ouvir a conversa de Bock com outro oficial. Falou-se de “feiticeiros”. Julguei perceber que havia um campo de prisioneiros, próximo. De manhã, puxei conversa com o meu simpático general. Que sim, havia, mas nem pensar numa visita.

Contou-me que há vários anos a Unita fora confrontada com um problema filosófico sobre o poder, em versão prática: as coisas definitivas, como matar, não podiam ser deixadas ao deus-dará dos cidadãos… Em Angola abundavam feiticeiros, ou pelo menos disso estavam certos os seus povos. Bruxos, gente maléfica que com mezinhas ou mesmo só mau-olhado sobre um vizinho o lançava na agonia. Por vezes eram descobertos, ou só suspeitados, e a vingança da aldeia era sempre terrível.

Ali, no leste, a morte era certa. E era conforme: os luchazes enterravam-nos vivos; os quiocos do sul queimavam-nos; os songos despedaçavam-nos à catanada: os quiocos das Lundas amarravam-nos e atiravam-nos aos jacarés… Ai de quem fosse coberto de cinza pela aldeia, sinal de suspeitas. Ora, à Unita aborrecia-a a justiça popular, menos pela brutalidade do que pela concorrência. Avisaram as autoridades tradicionais: matar não podiam. Conheceu a resposta: então fica com ele! E a Unita ficou, com um, dois e dez… Deu-se conta quando já tinha dezenas à sua guarda. Em 1984, criou um campo de presos, só de feiticeiros e bruxas, no Baixo Lomba, um pouco a norte de Mavinga.

O general Bock rematou: “Mas não podes ir lá.” Insisti: “Na Europa andam a dizer que Savimbi mandou queimar feiticeiras na Jamba… Dava-vos jeito um jornalista contar os cuidados que, afinal, vocês põem para lhes salvar a vida…”, insinuei. O meu já amigo deu um riso vindo da garganta, fez-me perceber que eu não o enganara, mas deixou a resposta suspensa. “Agora não dá, mas quando vieres para baixo, logo se vê…” O general ia pedir instruções à Jamba. Parti no camião sul-africano Samil, pelas picadas rumo ao norte, com o meu pelotão, o seu capitão, e eventual gente à boleia.

Escolhi ir na carroçaria, queria meter mais Angola pelos olhos dentro do que a cabina me daria. Apesar das picadas, atalhos de terra mal batida, o Samil não saltava, levava como lastro toneladas de morteiros 81mm. Cruzámos raros veículos e lembro-me de outro camião, esse com carga ainda mais pesada: muletas. Às centenas, com os apoios para o sovaco de napa garrida, azul, amarela, vermelha… O leste era uma vasta roça de minas plantadas. Uma tarde, cheguei aos dois carris do Caminhos de Ferro de Benguela (CFB) que olhavam um para outro, ociosos – há anos que o comboio não passava. Depois do CFB, deixámos o camião, fomos a pé até às terras do coronel Antonino, nas montanhas, já na província de Malanje. O caminho feito desde a Jamba já era o dobro do que me faltava para chegar a Luanda. Voltei para trás.

Uma viagem que completei em seis semanas e meti em 16 páginas da revista de O Jornal, onde eu trabalhava em Lisboa. Entre as tantas histórias, essa, no regresso, de ao passar por Mavinga, o general Bock ter-me autorizado a ir à aldeia dos amaldiçoados. Os dois guerrilheiros companheiros de viagem ficaram, pois, à porta do campo – pero las hay, las hay também se deve dizer em tchokwe, a maior das língua do leste angolano… Lá dentro, cubatas mal guardadas por arame farpado (as onças desaconselhavam as fugas), 69 mulheres e 14 homens. Camponeses pobres e muito tristes, elas quase todas descalças e lenço branco na cabeça, eles de chapéu e botas toscas. Fotografei-os em grupo, triste cada um deles.

Fanzoni Tamahina, velho de idade desconhecida, de Cambungue, Moxico. Um vizinho morreu numa trovoada e acusaram-no de ter lançado maldição. Negou mas estava contente por estar ali, a alternativa era a catana. Fernando Sandala, 41 anos, também negava a acusação de bruxedos feita pelo soba da sua aldeia. Teresa Xitula, de 34 anos, do Huambo, no centro do país, onde a mãe lhe ensinou as poções. Matou o primeiro filho, enterrou-o, buscou-lhe depois os ossos e matou mais cinco pessoas. Debitou-me as façanhas com indiferença. Nambriz Nachicala, do Menongue, enfeitiçou e matou uma mulher e dois filhos. “Inveja”, admitiu. Mas logo teve um ataque de soberba: não lhes dera nada de beber, nem comer, nem se aproximara das vítimas. “Só mesmo força do feitiço”…

Havia crianças que mamavam ao colo de mamãs-bruxas. Os presos eram quase todos velhos e os soldados do campo juraram-me que nunca tocavam nas pestíferas. O comandante do posto não tinha dúvidas de que na aldeia continuavam os bruxedos, nas madrugadas havia vultos à cata de raízes estranhas. A aldeia ficava nas margens do rio Lomba e, insisto, a poucos quilómetros de muito sofisticada e moderna batalha.

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