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Eleitores moçambicanos confrontam candidatos com pobreza e promessas

Perpétua Machava, vendedora, apanhou Eneas Comiche em campanha eleitoral no mercado Mandela, no centro de Maputo, e lembrou-se de quando ele foi presidente do município.

“O senhor não fez nada”, diz-lhe na cara, durante uma conversa olhos nos olhos em que ele lhe responde: “temos que falar sobre isso”.

“Há 15 anos, como hoje, também prometeu melhores condições para os comerciantes, mas nada foi feito durante o seu mandato”, entre 2003 e 2008, lamenta Perpétua.

Ainda assim, não está perdido o voto no partido do tambor e da maçaroca, que governa o país desde a independência de Portugal, em 1975.

“Eu vou votar porque sou da Frelimo”, garante a comerciante, que aproveita para reclamar das taxas impostas pelo Conselho Municipal num mercado quase em ruínas.

“Isto não é um mercado. Nós não queremos isto. Não queremos um mercado com estas condições”, afirmou Eneas Comiche, prometendo reabilitar o mercado caso vença o escrutínio.

Entre os candidatos a Maputo, nas eleições autárquicas de Moçambique, o cabeça-de-lista da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) é o veterano, com 79 anos e o currículo mais longo: além de autarca, já foi ministro e governador do banco central, entre outros cargos.

Não muito longe dali anda em campanha Hermínio Morais, candidato do principal partido da oposição, a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), mas não é ele quem fala.

Quem faz a festa é Venâncio Mondlane, 44 anos, que através da rede Whatsapp divulga textos em que é classificado como VM7 – o CR7 da política moçambicana, numa alusão ao futebolista português Cristiano Ronaldo.

Hoje não é o candidato, mas há uma semanas foi o escolhido da Renamo.

A Comissão Nacional de Eleições (CNE) afastou-o.

Ainda recorreu, mas o Conselho Constitucional (CC) não aceitou o recurso. Independente das decisões das autoridades, manteve-se na campanha. “Eu sempre digo: a minha luta dentro da Renamo pelo povo não mudou”, destaca Mondlane, que ficou porta-voz da campanha de Hermínio Morais e assim continua a dar a cara por Maputo.

Venâncio Mondlane saiu este ano do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), terceiro partido parlamentar, para a Renamo, numa de várias movimentações de candidatos inéditas em eleições autárquicas em Moçambique.

É que até Eneas Comiche teve de enfrentar oposição interna de jovens da Frelimo para ser candidato – e depois de preterido, Samora Machel Júnior, filho do primeiro presidente de Moçambique, avançou como independente.

Acabaria afastado pela CNE e pelo CC, dizendo ter sido alvo de “artimanhas” do seu partido – enquanto analistas explicaram à Lusa que as rejeições de candidaturas foram demasiado legalistas.

Nas ruas da periferia de Maputo, estas movimentações pouco interessam. O problema é “a fome”, alertou uma residente do Bairro do Jardim, à conversa com o cabeça-de-lista do Movimento de Democrático de Moçambique (MDM), Augusto Mbazo.

“O que nós queremos, acima de tudo, é uma forma de acabar com a fome. Estamos a passar mal. Eles vêm para cá para pedir votos e nós estamos a ouvir. Mas o que queremos é melhorar a nossa vida”, resumiu Esmeralda Marcelino.

“Nós queremos devolver a dignidade às famílias moçambicanas. Nós estamos a dar uma esperança aos munícipes”, afirmou, por seu turno, o cabeça-de-lista do MDM.

Quase sete milhões de eleitores estão recenseados para as quintas eleições autárquicas de Moçambique, marcadas para 10 de outubro em 53 municípios, que cobrem parte do território nacional onde a campanha eleitoral começou na terça-feira e tem decorrido de uma forma tranquila.

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