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Emigraram mais de cem mil operários da construção só nos últimos três anos

Países europeus estão a recrutar mão-de-obra portuguesa, chegando a oferecer salários quatro vezes superiores. Falta de formação continua a ser um problema.

Portugal perdeu, só nos últimos três anos, mais de cem mil trabalhadores da construção. O número é do Sindicato da Construção e refere-se ao total de operários que pediram a suspensão das suas quotas antes de irem trabalhar para o estrangeiro. Só neste ano, diz o presidente do sindicato, foram mais 7500 os que emigraram. “Pelo menos”, garante Albano Ribeiro, que alerta: “O que vale é que o aeroporto do Montijo não é para construir já, ou não haveria trabalhadores. Só para uma obra dessa envergadura serão precisos dez mil e não há, porque os que temos estão a deixar a família e o país para irem para fora ganhar quatro vezes mais.” França, Alemanha, Bélgica, Suíça e Holanda são alguns dos países europeus com grande número de operários portugueses.

Albano Ribeiro está convicto de que o setor tem “contribuído muito para a descida do desemprego nacional, mas por força da emigração”. E isso mesmo transmitiu ao presidente do Instituto do Emprego e da Formação Profissional (IEFP), com quem se reuniu nesta semana para debater a questão da falta de formação. “Cerca de 55% dos trabalhadores da construção têm mais de 50 anos e não há formação para carpinteiros, pintores ou armadores de ferro”, afiança.

A solução, para muitos dos grandes grupos construtores, tem sido tentar trazer para Portugal alguns dos trabalhadores que qualificaram nos países africanos, onde têm estado a operar nos últimos anos. Mas o processo de obtenção de vistos não é tão célere e fácil como gostariam. O sindicato reconhece que há brasileiros e angolanos a trabalhar na construção em Portugal e não tem nada a opor. “Se temos falta de mão-de-obra em Portugal e há bons operários que as empresas portuguesas ajudaram a formar lá fora dispostos a virem para cá, só temos de louvar a iniciativa”, diz Albano Ribeiro.

Vistos especiais
A Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN) tem vindo a reclamar a criação de um mecanismo transnacional de trabalhadores locais das empresas portuguesas a operar nos países lusófonos, uma espécie de regime excecional de mobilidade, que serviria tanto para formação como para trabalho efetivo. “O governo tem sido sensível ao tema, mas é preciso passar à prática. Não vivemos de sensibilidade, precisamos de atos e estes tardam para resolver um problema que tem, pelo menos, ano e meio e que não fomos nós que o criámos”, diz o presidente da AICCOPN, Reis Campos, que lembra o “duro ajustamento” a que as empresas foram sujeitas, designadamente no tempo da troika.

“A construção foi o setor mais afetado pelos anos da crise. Não houve espaço, não houve dinheiro, não houve programação e o setor desmoronou. Mas não fomos nós que dizimámos 260 mil trabalhadores ou que encolhemos a produção em 43%, a construção foi dizimada em consequência de opções políticas. Agora é preciso encarar a situação atual e o futuro, dando condições às empresas para que possam cumprir a sua missão de construir a preços compatíveis. Para isso, precisamos de mão-de-obra especializada”, defende o patrão dos construtores.

Reis Campos garante, ainda, não perceber porque faltam 70 mil trabalhadores especializados na construção se havia, no final do primeiro semestre, mais de 38 mil desempregados inscritos nos centros de emprego. “Não percebemos porquê, mas a verdade é que existem e continuam à margem do mercado a alimentar as cadeias de trabalhadores clandestinos”, frisa Reis Campos, que exige um apertar da rede no combate à clandestinidade na construção.

Sobre os operários emigrados, o patrão dos construtores admite que “dificilmente os conseguiremos recuperar”, designadamente pelo “nível salarial que estão a auferir, pelas condições de trabalho e pela própria inclusão social nos países onde estão”. O sindicato fala em rendimentos quatro vezes superiores aos praticados em Portugal.

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