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Escrava sexual que matou o agressor vai ser libertada 15 anos depois

O polémico caso da americana Cyntoia Brown, que tinha 16 anos quando matou um homem que lhe pagou por sexo e terá tentado matá-la, tem novo desenvolvimento. Hoje com 30 anos, Brown sai em liberdade mais cedo do que previsto, pois só seria elegível para liberdade condicional em 2055.

Depois de cumprir 15 anos de prisão por ter matado o homem que lhe pagou por sexo quando tinha 16 anos, Cyntoia Brown, que então trabalhava para um proxeneta, vai ser libertada, anunciou o governador do Tennessee Bill Haslam nesta segunda-feira.

A 7 de agosto Brown, agora com 30 anos, ficará em liberdade condicional durante dez anos, neste que é um novo desenvolvimento do polémico caso, que, se acontecesse hoje, a julgaria como uma vítima de tráfico sexual. Antes desta segunda-feira, Cyntoia Borwn só poderia ser elegível para liberdade condicional em 2055.

Brown alvejou Johnny Mitchell Allen enquanto este dormia, e roubou-lhe dinheiro, armas, e uma carrinha, antes de fugir do local. A jovem afirmou que o homem de 43 anos já tinha tentado agarrar uma arma para a matar. No julgamento, o ato da rapariga não foi considerado autodefesa. Brown, por sua vez, afirmou que temeu pela vida e que roubou o dinheiro por ter medo de regressar sem nada para junto do seu proxeneta, conhecido como “Corta Gargantas”, com quem viveu depois de fugir da casa da sua família adotiva. Julgada como uma adulta, apesar dos seus 16 anos, Brown foi considerada culpada por homicídio e roubo, com uma sentença de prisão perpétua.

No documentário Me Facing Life: Cyntoia’s Story Cyntoia Brown conta que o seu proxeneta a tinha presa. “Ele não me deixava ir a lado nenhum. Disse que me matava.”

“Esta decisão vem depois de uma consideração cuidada daquele que é um caso trágico e complexo”, afirmou o governador, citado pela CNN. “A transformação deve ser acompanhada por esperança”, acrescentou ainda, referindo-se às mudanças e amadurecimento por que Brown terá passado neste período de prisão, que implicou estudar e apoiar jovens em situações de risco.

O caso chamou a atenção não só de inúmeras ativistas e personalidades da área do Direito norte-americano, mas também de celebridades como a comediante Amy Schumer, Kim Kardashian, Rihanna, ou a atriz Ashley Judd que se insurgiram contra o facto de Brown, vítima adolescente de tráfico sexual, ter sido julgada desta maneira. Mais de cem mil pessoas assinaram em 2017 uma petição pedindo liberdade para a condenada.

O fundador e CEO da associação End Slavery Tennessee lembrou à CNN que no processo abundava o uso da expressão “prostituta adolescente”. “Sabemos hoje que não existe tal coisa… porque esta adolescente pode pensar que foi ideia sua ter sido violada várias vezes por dia e dar o dinheiro a outra pessoa. [Mas] é bastante claro que há um adulto por trás que está a manipulá-la e a explorá-la.”

O caso de Brown ajudou também a mudar a lei do Tennesse, em 2011, para crianças que passaram por algo semelhante. Atualmente, alguém com 18 anos ou menos não pode ser acusado de prostituição.

Outra das revelações do documentário Me Facing Life: Cyntoia’s Story, produzido pela Daniel H. Birman Productions, é que Brown possa ter sofrido de síndrome do alcoolismo fetal, que provoca danos cerebrais, algo que não foi considerado em julgamento.

Brown agardeceu ao governador “pelo ato de misericódia em dar-me uma segunda oportunidade. Vou fazer tudo o que puder para justificar a sua fé em mim”, afirmou numa declaração divulgada pelos seus advogados e citada pelo New York Times .

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