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Inês levou luz em garrafas de água para a Guiné e dá vida ao lixo moçambicano

Uma portuguesa é responsável por ter levado “gotas de luz” elétrica em garrafas de plástico a várias aldeias da Guiné-Bissau e por transformar montanhas de lixo moçambicanas em brinquedos e azulejos.

ome o seu lugar. Sente-se. Uma aula de humanismo vai começar. A professora é Inês Rodrigues, docente de inglês e alemão, mas fluente, acima de tudo, na linguagem universal da solidariedade. O sumário é ditado pela própria: “é a educação que faz mover o mundo”. A portuguesa, natural da Maia, tornou-se uma cidadã do mundo a 1 de junho de 2011, quando no Dia Mundial da Criança se fez adulto um sonho que aprendeu a ser real: o de criar a organização EDUCAFRICA.

Daquele dia em diante, fez-se luz na vida de Inês. Uma luz usada em favor dos outros. Uma energia capaz de dar um brilho de diamante aos resíduos, utilizando garrafas de plástico para inundar com “gotas de luz” elétrica várias aldeias da Guiné-Bissau ou produzir azulejos, piões e legos com o mesmo material, despejado a céu aberto nas montanhas de lixo de Maputo.

A ideia de reaproveitar pequenas embalagens de água para produzir eletricidade surgiu quando Inês trabalhava num centro de formação, onde teve a oportunidade de contactar com vários alunos provenientes dos PALOP’s, despertando a consciência da professora de 41 anos para as carências sentidas nos países de origem daqueles estudantes. “Tem muito impacto ouvir um jovem dizer que tinha de levar um banco para a escola porque não tinha onde se sentar ou casos em que usavam um saco de plástico para levarem os livros e os cadernos por não terem mochilas”, conta, ao Expresso, a mentora da EDUCAFRICA, agraciada com o Prémio Terre de Femmes, no valor de 10 mil euros, atribuído anualmente pela Fundação Yves Rocher.

“Uma das grandes lacunas que elencavam era o problema de falta de iluminação. Falavam-me de aldeias inteiras sem eletricidade e foi aí que decidi produzir energia elétrica com materiais do quotidiano”, recorda Inês Rodrigues, relativamente ao projeto “Tabanca Solar”, implementado em oito aldeias de Guiné-Bissau, onde foram colocadas as “lâmpadas solares”, que funcionam como clarabóias.

“A água é um bom refrator de luz”, explica a professora de soluções luminescentes para os mais escuros problemas, acrescentando que com “uma garrafa, com 10 ml de lixívia (que evita a criação de fungos), consegue produzir-se 50W de energia durante o pico do sol”. Por outras palavras, uma simples garrafa pode servir para iluminar um quarto com 20 metros quadrados.

“Quando montámos a primeira lâmpada num dos telhados, a nossa expectativa era que durasse três anos. Neste momento, já passaram mais de quatro anos e as ‘lâmpadas’ continuam impecáveis”, assevera a responsável desta ONG, vocacionada para a criação de alternativas sustentáveis, onde a reutilização daquilo que muitos consideram desperdício ganha uma nova vida, iluminando sorrisos. “O que mais me surpreendeu foi a alegria das pessoas”, confessa Inês Rodrigues. “Estamos a falar de pessoas que pararam no tempo, há muitos séculos. Nâo têm nada. Não têm eletricidade, canalização ou casas-de-banho”, contextualiza, realçando que 70% da população vive na penumbra da falta de acesso à eletricidade.

Inês pára. Liga o interruptor da memória para tornar visível, através das palavras, uma história que ainda hoje guarda com um carinho resplandecente. “Fomos visitar uma casa em que a senhora tinha recebido a ‘lâmpada solar’ há duas semanas. Segurava nos braços um bebé muito pequenino, o filho nascido há um mês, e estava muito contente. Agradeceu-nos muito porque finalmente já conseguia ver o filho, cujas feições nunca tinha visto no interior da casa, escura até então. Isso mexe muito connosco”, frisa a professora que escreve páginas mais claras na vida das pessoas com que se cruza.

A FELICIDADE É COMO AS BANANAS. VEM AOS CACHOS
O sonho sem fronteiras de Inês mudou-se da Guiné para Moçambique, país onde, no início deste ano, a EDUCAFRICA colocou em marcha a iniciativa “África 2ECO”, financiada pela Unicer. As diferenças são abismais. “Fiquei muito espantada com o país”, salienta esta mulher de causas, espantada com a robustez do comércio, da indústria e do forte investimento estrangeiro. O desenvolvimento tem, contudo, um preço capital a pagar, em Maputo. “Existe o enorme problema dos resíduos, espalhados pelas ruas. Há um esforço para se fazer a recolha e existem lixeiras organizadas, mas vou-lhe mostrar como são”, diz Inês, enquanto mostra alguns vídeos no tablet. As imagens não enganam. São autênticos montes de lixo, onde vários “catadores” deambulam, à procura de peças, pagos miseravelmente pelo apetite do mercado chinês.

“Sempre que chegava um camião para despejar mais resíduos, as pessoas corriam na sua direção e eu não percebia o motivo. Depois explicaram-me que ali é que está o lixo de qualidade, como lhe chamam”, explica Inês Rodrigues, retratando um cenário onde via crianças que ali trabalhavam, das 6h da manhã até ao meio-dia, na recolha de lixo, totalmente expostas aos efeitos nocivos do malogrado ofício, sem usarem luvas ou máscaras, banhadas em charcos de água estagnada antes de irem para a escola.

As paredes de lixo podem atingir o tamanho de prédios com dez andares, onde seringas e outros objetos perigosos são empilhados no meio do lixo comum. “Como é que podemos dar vida a estes resíduos?” Foi a pergunta que Inês colocou, servindo de ponto de partida para o aproveitamento de resíduos de plástico na produção de painéis de azulejos ou brinquedos, como piões ou legos. O trabalho de reconversão, define Inês, “é aquilo que a imaginação quiser”.

O processo de recolha começou na praia, envolvendo um grupo de crianças. Uma delas desmaiou. Inês ficou em choque. O professor relativizou, porque “é normal os alunos caírem para o lado com fome”.

De pé, bem firme, continua o desígnio de Inês Rodrigues: “ver a satisfação daquelas pessoas”, que “agradecem com sorrisos ou com um cacho de bananas, o que para elas significa dar-nos o melhor que têm”.

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