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Pesquisas por pornografia aumentam no Natal. “Há uma alegria no ar”

“Sexo” e “pornografia”. Na semana do Natal as pesquisas feitas no Google aumentam. Investigadores dizem que pode ser porque estamos mais alegres. Mas há outras hipóteses.

“Vejo pornografia essencialmente porque gosto, quando me apetece. Vejo porque me excita, porque me dá ideias, porque gosto de pessoas, de corpos e de sexo.” Este é o testemunho de Alex que falou por email. Diz que não tem preferências específicas de acordo com a altura do ano e que não nota um interesse maior por filmes do género na semana do Natal. “Só se for por estar de férias e ter mais tempo livre.” Mas, mesmo assim, não lhe parece que haja diferença. “Não creio que seja particularmente significativo em comparação com quaisquer outras férias que tenha.”

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A tendência geral, porém, é de aumento das pesquisas no Google por termos como “sexo” e “porno” (e as suas equivalentes em inglês) na semana entre o Natal e o Ano Novo. Os dados do Google Trends — plataforma que agrega estatísticas sobre as tendências de pesquisa no motor de busca — permitem analisar o interesse por um (ou vários) termos pesquisados ao longo do tempo. Ao momento em que o termo atingiu o pico de popularidade atribui-se o valor 100 e todos os outros oscilam em função desse número. À excepção do pico na altura do Natal, o interesse manifestado pelas pesquisas por sexo e pornografia é relativamente estável no início do ano, cresce ligeiramente no Verão e decresce entre Outubro e Novembro. Também é maior quando há períodos de férias e festividades e aos fins-de-semana.

Um zoom aos números do mês de Dezembro (entre 2014 e 2017) permite analisar a popularidade diária destes termos. O sábado e o domingo são, tal como nos outros meses, os dias em que há um maior interesse. Além disso, é nos dias 26 e 27 que há um aumento na busca por sexo na Internet — uma tendência que se acentua ainda mais se for fim-de-semana. No dia 24 o interesse está por norma abaixo da média para o mês e aumenta no dia 25.

Joana Gonçalves-Sá, professora na Nova School of Business and Economics (SBE), é uma das autoras de um estudo de 2017 que se foca na análise da sazonalidade do interesse sexual, medido através das pesquisas no Google.

Os investigadores cruzaram a utilização de termos relacionados com sexo e pornografia com a análise das emoções no Twitter para perceber o que podia explicar o aumento durante as festividades. Analisaram 10% dos tweets gerados entre 2010 e 2014 em 130 países e chegaram à conclusão que “no Natal, há um sentimento muito específico que não detectamos noutras alturas do ano”, aponta Joana Gonçalves-Sá. Notaram também que “quanto mais alegre o ambiente, mais pesquisas por sexo existem”. Isto vem confirmar “que há uma espécie de alegria no ar que desperta o interesse sexual”.

Apesar da grande variedade de palavras e expressões usadas para pesquisar sobre o tema, os investigadores optaram por utilizar a expressão “sexo” que, explica Joana Gonçalves-Sá, está “muito correlacionada” com todas as outras, para fazer esta análise.

A especialista nota ainda que “as pessoas pesquisam cada vez menos por sexo e mais por sites específicos que conhecem”, mas verificou-se que todos os termos “mantêm estes picos” relacionados com o Natal nos países cristãos e com o Eid-al-Fitr — a celebração muçulmana que marca o fim do jejum imposto pelo Ramadão — nos países muçulmanos.

A ideia do trabalho era avaliar quais as causas do maior interesse sexual nesta época (que depois se traduz, nos países de maioria cristã, em mais nascimentos em Setembro do que em qualquer outro mês do ano) e perceber se tinha mais a ver com factores culturais ou biológicos. Algo que nunca tinha sido feito.

Os investigadores concluíram que é um fenómeno eminentemente cultural porque os padrões são semelhantes entre os países cristãos e entre os muçulmanos dos hemisférios Norte e Sul. “Às vezes, ao olharmos para os perfis de pesquisa, conseguíamos adivinhar se era um país cristão ou muçulmano.” Isto porque nos países onde se celebra o Natal o pico é nessa altura, e naqueles em que se assinala o Ramadão há um decréscimo seguido de uma subida durante o Eid-al-Fitr.

Dois investigadores norte-americanos, Patrick Markey e Charlotte Markey, também analisaram as tendências de pesquisa no Google Trends para os Estados Unidos. Foram além da procura por pornografia — sites de encontros e pesquisas por prostituição também foram considerados — e concluíram que, pelo menos nos EUA, há dois ciclos por ano: um no início do Verão e outro no Inverno, em particular em Dezembro.

A professora da Nova SBE admite que não é possível saber se “a população que está no Twitter é a mesma que está no Google a ver sites pornográficos”. No entanto, “temos uma amostra tão grande que é muito improvável que não exista sobreposição”.

O médico psiquiatra e sexólogo Júlio Machado Vaz nota que é difícil traçar um perfil. “Não há um consumidor padronizado de pornografia.” Pode ser uma mulher, um homem, um casal. E nota, também, que nem todos terão a mesma motivação para aceder (ou pelo menos procurar) estes conteúdos. “Uns estão mais contentes, cheios de espírito natalício, e outros estão mais em baixo. Para algumas pessoas o consumo de pornografia é um antidepressivo.”

Há ainda um outro grupo, o daqueles que “consomem pornografia por sistema ou até compulsivamente”. Mas uma coisa é certa, diz Machado Vaz: “Ninguém começa a ver pornografia no Natal quando nunca o fez. Pelo menos não é o mais habitual.”

“As pessoas sentem-se mais livres para se expressarem sexualmente”
Hoje, somos “menos conservadores” do que antes e já conseguimos ver o exercício da sexualidade “como um direito”. Em geral, “as pessoas sentem-se mais livres para se expressarem sexualmente”. Especialmente entre os mais velhos e as mulheres, nota Zélia Anastácio, professora no Instituto de Educação da Universidade do Minho.

Avisa, porém, que há formas “mais ou menos positivas” de exercer esses direitos. “Pode ser positivo no sentido em que as pessoas quebram as amarras e inibições que tinham e o sentimento de culpa e passam a perceber que ter um relacionamento sexual prazeroso é um direito, faz parte da condição humana.”

Por outro lado, “pode ser algo negativo quando associado à promiscuidade, à multiplicidade de parceiros, sem os cuidados que as pessoas precisam de ter para evitar os contágios”, aponta Zélia Anastácio. Uma questão ainda a ter em conta é “alguma falta de respeito”. Porque “se uma pessoa é permissiva e a outra abusa um pouco mais então há uma diferença entre poder de negociação”.

Os 40 anos que o psiquiatra e sexólogo Júlio Machado Vaz tem passado a “ouvir pessoas” também lhe permitiram testemunhar a transformação na relação entre os portugueses e a pornografia. “No início eu não ouvia mulheres a falar de pornografia. Agora ouço.”

Daniel Cardoso, professor na Universidade Lusófona, também reconhece que há uma “maior abertura e diversificação das práticas sexuais” entre os portugueses. E que as diferenças entre géneros são menores. Mas mesmo assim frisa que “Portugal é um dos países onde se reportam menores taxas de masturbação feminina”. Porquê? “É fruto da nossa cultura. Há uma espécie de barreira social.”

“Uma compensação”
Daniel Cardoso, professor na Universidade Lusófona e autor de uma tese de doutoramento sobre a relação entre os jovens, as novas tecnologias e a sua sexualidade, não descarta a hipótese de o espírito natalício motivar o consumo de pornografia. Mas lança outras possibilidades.

Dado que é uma altura que pode ser stressante, “a masturbação pode servir como estratégia de libertação de stress”. E avisa: “Não há uma só razão para ver pornografia. É algo complexo.”

Quanto aos mais jovens, a professora no Instituto de Educação da Universidade do Minho, Zélia Anastácio, diz que a visualização de pornografia pode prender-se com uma “maior disponibilidade”, por ser tempo de férias. “Acredito, por relatos que tenho, que isso acontece entre grupos de amigos e em crianças com irmãos mais velhos que são expostas a esses conteúdos”, nota. Quanto aos adultos, sugere que, como esta é “uma altura de apelo às emoções e afectos, as pessoas que estão sozinhas sentem-se um bocadinho pior e esta acaba por ser uma compensação”.

Curiosamente, os dados do tráfego no Pornhub, um site que agrega conteúdos pornográficos, não confirmam o aumento revelado pelos dados do Google no consumo de pornografia nos dias de Natal em Portugal. A 24 de Dezembro, os acessos vindos de Portugal diminuem 61,9% e a 25, a quebra é de 18,3%. Olhando para os meses do ano, o Dezembro é um dos menos populares entre os portugueses que recorrem ao Pornhub: há uma quebra de 1,7% em relação à média anual.

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