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Porque é que a bolsa adora Bolsonaro

Apesar dos avisos da Standard & Poor’s, da The Economist e dos especialistas locais, os mercados no Brasil andam eufóricos com a perspetiva de o candidato do PSL chegar à presidência.

O domingo passado pode ficar na memória como o dia em que um candidato de extrema-direita quase ganhou eleições democráticas no Brasil logo à primeira volta. Mas a segunda-feira que se seguiu ficará na história como o dia em que o Bovespa, principal índice da Bolsa no Brasil, movimentou mais dinheiro de sempre. Há uma relação causa-efeito? Claro que sim, o mercado brasileiro adora Jair Bolsonaro. E porquê? Analistas internacionais não entendem, os nacionais procuram uma explicação.

“Há uma preocupação muito grande do mercado com a agenda de candidatos de esquerda em relação ao ajuste orçamental e ao tamanho do Estado”, disse ao jornal O Estado de S. Paulo Michael Viriato, coordenador do laboratório de finanças do Insper.

Para André Perfeito, economista-chefe da Spinelli Corretora ouvido pelo Nexo Jornal, “é um conjunto de coisas que explica a atração do mercado por Bolsonaro”. “O ajuste orçamental que ele propõe, baseado em venda de estatais, soa como música para o mercado, e a partir daí surgem várias frentes de negócios a serem desenvolvidas, isso sem falar que melhoraria a questão orçamental, o que baixa a taxa de juros e gera uma apreciação dos ativos, ou seja, a solução proposta casa com o que encanta o mercado.”

O recorde bolsista traduziu-se em alta de 4,57%, equivalente a inéditos 86 mil pontos, e 28,9 mil milhões de reais transacionados. O dólar vale agora 3,76 reais, uma queda de 2,40%.

“Nenhum analista político havia previsto uma renovação no Congresso como a que se verificou, nem a vitória de governadores que apoiam Bolsonaro, o mercado comemorou esses resultados”, disse Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos. “No entanto, a agenda económica de Bolsonaro tem ficado a um canto no discurso dele, ele, para já, fala em reduzir a carga tributária e em privatizar 50 estatais mas isso não é possível.”

Bolsonaro obteve 46% dos votos na primeira volta, contra 29% de Haddad.

Glauco Legat, analista da Spinelli, faz mesmo um alerta. A tal segunda-feira histórica “é apenas o lado positivo do mercado, a volatilidade não foi afastada”.

Organismos internacionais, como a agência de risco Standard & Poor’s, entretanto, lembram que Fernando Haddad, mesmo sendo de esquerda, não é um outsider. “O candidato do PT não é um estranho e Bolsonaro é um estranho, o que aumenta o risco de incoerências ou atrasos a lidar com o Congresso após a eventual vitória nas eleições e os problemas orçamentais e sociais já estão aí e são urgentes”, disse Joydeep Mukherji, analista da agência para o mercado latino-americano.

As gestoras americanas de ativos Black Rock e Ashmore vão mais longe. A primeira, a maior do mundo, disse que uma vitória de Bolsonaro pode comportar “um gatilho de agravamento” na agenda latino-americana; a segunda sublinhou em relatório que enquanto Haddad “é de uma ala moderada do PT”, o candidato de extrema-direita tem “preocupantes tendências autoritárias”.

A imprensa internacional especializada, como o Financial Times e a The Economist, estão na mesma direção. A segunda chamou mesmo de “desastre” uma eventual vitória do candidato do PSL.

Bolsonaro obteve 46% dos votos na primeira volta, contra 29% do presidenciável do PT. A segunda volta, entre ambos, está marcada para dia 28.

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