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Quando o sexo é um vício

Ainda que o tema seja sexo, o assunto não tem nada de sexy. Tem mesmo pouco de prazeroso. As palavras que dominam os discursos são outras: ansiedade, sofrimento, culpa, vergonha, tortura, vazio, frustração. Durante anos discutiu-se se havia uma patologia relacionada com a compulsão sexual. Em meados de 2018, a Organização Mundial da Saúde declarou oficialmente que há. Chama-lhe “Perturbação do Comportamento Sexual Compulsivo” e quem sofre com ela garante que pode arruinar a vida.

Abril de 2017. Depois de ler a mensagem da namorada, José parou o carro, encostou-se atrás e levou as mãos à cara. Não chorou. O choro viria uns meses depois, quando se ajoelhou no seu consultório, já em pleno processo de recuperação, juntou a mãos e pediu ajuda a alguma coisa superior a si.

“Sei onde estás e com quem estás”, dizia a mensagem que acabara de ler. Estava num hotel, estava a traí-la e estava longe de conseguir contabilizar sequer quantas vezes já o tinha feito antes. Também não era a primeira vez que uma namorada o apanhava a trair e sabia que, se não fizesse nada, não seria a última. Teve finalmente uma epifania que, acredita agora, só pecou por tardia: a sua vida era perfeitamente ingovernável.

Vivemos numa sociedade hipersexualizada, mas, paradoxalmente – ou talvez precisamente por isso -, assiste-se a uma crise do desejo, sobretudo masculino. Sabe-se que há cada vez mais casais que vivem juntos mas não têm vida sexual. Os estudos mostram que os adolescentes e jovens adultos de hoje fazem menos sexo do que os das gerações anteriores.

E os consultórios dos sexólogos estão cheios de pessoas que gostariam de ter uma vida sexual mais ativa. Mas ainda que o panorama geral seja dominado por queixas focadas em sexo a menos, há sempre quem tenha problemas que não são os da maioria. Estima-se que 3 a 6% da população – a maioria homens, entre 70 e 80 % dos casos – debate-se com o problema oposto, um comportamento sexual compulsivo e repetitivo que não controla e que, na realidade, não deseja.

José faz parte dessa percentagem pouco expressiva. Os familiares e amigos sempre lhe chamaram Don Juan porque tinha muitas namoradas – um eufemismo compreensível, justificado pela ignorância acerca do seu problema. O médico, de 52 anos, define-se de forma um pouco diferente: “Um caçador furtivo solitário”. O mais discretamente que conseguia tinha sexo compulsivo com uma pessoa diferente em cada dia da semana, às vezes duas, por vezes três e uma vida totalmente dominada por todos os esforços necessários à manutenção desse tipo de ritmo.

“A minha vida resumia-se a isto: a ansiedade da conquista, os flirts, programar encontros, práticas sexuais e começar tudo outra vez”, conta. De manhã, ao acordar, começava a disparar mensagens para várias mulheres, os intervalos das consultas eram gastos agarrado ao telemóvel, saía do bloco operatório com pressa para ir a dois encontros programados com hora e meia de diferença e à noite – roubando muitas horas ao sono – obrigava-se a ficar acordado a flertar com quatro ou cinco mulheres ao mesmo tempo, de forma a garantir encontros sexuais para os dias seguintes.

“É uma coisa que toma conta de nós, que é mais forte do que a nossa vontade, que causa um permanente sentimento de culpa e que se transforma mais numa tortura do que num prazer”, resume. Sabe que correu riscos e que desinvestiu na carreira. “Envolvi-me com várias pacientes, tive práticas sexuais em locais de trabalho e, de uma forma geral, esta compulsão prejudicou muito a minha progressão profissional: o tempo não chegava para tudo.”

Só há menos de dois anos, em abril de 2017, sentado dentro do carro e a olhar para a mensagem da então namorada, assumiu que tinha um problema. “Os médicos às vezes são um bocadinho cartesianos, têm de enquadrar tudo cientificamente. Eu olhava para isto como algo que fazia porque tinha vontade e que, por isso, era muito diferente das dependências de substâncias. Mas, depois, comecei a identificar coisas em comum: o impulso, a compulsão, os pensamentos obsessivos, as prioridades trocadas e uma ansiedade imensa de conquistar e ter sexo, muitas vezes, contra a minha própria vontade”.

Nesse mês, por altura do seu 50.º aniversário, assumiu-se como um viciado em sexo e começou a frequentar as reuniões do SAA (Adictos ao Sexo Anónimos), uma irmandade que tem por base um programa de recuperação de 12 passos, como o que é usado há décadas nos Alcoólicos Anónimos (AA) e nos Narcóticos Anónimos (NA).

Um problema de terminologia

“O conceito de comportamento sexual compulsivo, ou seja, a incapacidade para controlar o impulso, divide os meus colegas. Pessoalmente, vi casos que considero que podem ser enquadrados no conceito”, defende o psiquiatra e sexólogo Júlio Machado Vaz. “Não é obrigatório que haja um consumo de uma substância para se desenvolver o quadro clássico de compulsão: aumento da ansiedade, comportamento, alívio – muitas vezes acompanhado da decisão, sem sucesso, de alterar o comportamento – e recomeço do ciclo.”

Não é por acaso que esse comportamento divide especialistas e tem tido muitos nomes: dependência, adição ou vício, perturbação do controlo de impulsos, disfunção da hipersexualidade. Se lhe chamam muitas coisas é precisamente porque não havia, oficialmente, um nome para lhe dar. Havia, mesmo, quem argumentasse que, em bom rigor, a patologia não existia, já que nem o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM), da American Psychiatric Association, nem a Classificação Internacional de Doenças (ICD), publicada pela Organização Mundial de Saúde, continham um diagnóstico nesse sentido.

Isso mudou em meados de 2018. A última revisão do ICD incluiu a “perturbação do comportamento sexual compulsivo”, uma condição que classifica como um padrão persistente de falta de controlo dos impulsos sexuais, que resultam num comportamento sexual repetitivo que se torna o foco da vida, a ponto de negligenciar outros interesses e responsabilidades, com numerosos esforços malsucedidos para o reduzir, apesar das consequências adversas e/ou da pouca ou nenhuma satisfação obtida com esse padrão.

Robert Weiss, um conhecido terapeuta sexual americano, autor de oito livros sobre o tema, trata o problema há décadas e, para ele, a ausência de um nome nos manuais nunca foi uma questão pertinente. “Até aos anos 1970, o DSM não incluía um diagnóstico de alcoolismo, mas isso não impediu que milhões de pessoas fossem alcoólicas. Com o vício do sexo, acontece o mesmo”, exemplifica, em entrevista à “Notícias Magazine”.

Mesmo assim, subsiste uma teima e resta uma vitória para aqueles que têm sido contra a inserção da doença nos manuais: a inclusão da OMS foi feita sob a designação de “perturbação compulsiva” e não debaixo do chapéu das dependências. “Viciados em sexo”, “dependentes de sexo” ou “adictos ao sexo” continuam, por isso, a não ser designações válidas cientificamente.

Apesar disso, Paula Hall, terapeuta sexual do Reino Unido, autora de vários livros sobre o tema, mantém no seu site e assinatura de e-mail o termo “Sex Addiction Therapist” (terapeuta de dependências sexuais) e não pretende mudá-lo. “Vai acontecer com o sexo o mesmo que aconteceu com o jogo: começou por ser integrado nas compulsões e depois foi mudado para as dependências”, observa. A especialista confessa que, na verdade, lhe interessam pouco os nomes. “Chamem-lhe como quiserem. O que já ninguém pode discutir é que um número crescente de pessoas sente angústia com os seus comportamentos sexuais e relacionais, que descreve como fora de controlo.”

A resistência de alguns à inclusão dessa perturbação nos manuais tem uma razão que ninguém pode acusar de ser mal-intencionada: há quem, legitimamente, tema o regresso de velhos fantasmas, de ideias moralistas que pretendem reprimir uma liberdade sexual que tanto custou a alcançar. Muitos terapeutas asseguram que, pelo contrário, essa é uma garantia de que não há espaço para juízos morais. “Infelizmente, tem havido muitos terapeutas moralistas e com convicções religiosas que usam a etiqueta do “viciado em sexo” para´tratar a homossexualidade, a bissexualidade, os fetiches ou um apetite sexual muito intenso. Tudo coisas que estão dentro das fronteiras de uma sexualidade saudável. Haver critérios de diagnóstico precisos vai ajudar a eliminar esse tipo de abusos”, sustenta Robert Weiss.

“Um vazio que sentimos cá dentro”

“Eu era um miúdo tímido e bem comportado, mas que fazia asneiras pela calada. A gaveta que estava fechada em casa era sempre aquela que eu queria abrir às escondidas”, revela Tomás, de 51 anos, que, não por acaso, sente necessidade de recuar até à infância para contar a sua história de compulsão.

O profissional da área da comunicação nunca foi um playboy. Na verdade, sempre foi tímido. Quando gostava de uma rapariga, acabava por nunca dar um passo em frente com medo de ouvir um “não”. Essa mesma timidez que o impedia de avançar com as mulheres de quem gostava, impeliu-o a criar um duplo padrão: começou a procurar aquelas de que não se interessava muito e que, por isso, não o faziam sentir-se nada tímido. Um alter ego que lhe permitia manter os padrões de infância: ser bem-comportado em público e abrir todas as gavetas proibidas às escondidas.

Apaixonou-se, casou, teve filhos, arranjou um bom emprego e conseguiu estabilidade financeira. Sabia que tinha tudo o que precisava para ser feliz, mas sempre que tentava pôr um travão ao lado privado e escondido fracassava. “É um vazio que sentimos cá dentro”, repete várias vezes. Um vazio que preenchia com muito consumo de pornografia, muitos flirts online, muitos casos no trabalho, muitas prostitutas e acompanhantes. Um vazio que nunca ficava preenchido e que lhe causava sentimentos de culpa e vergonha por querer mudar e não conseguir. “Sente-se uma dicotomia enorme entre aquilo que somos e aquilo que fazemos. Eu não era o que fazia. O que fazia ia contra os meus valores, mas não conseguia parar.”

Consultou uma psicoterapeuta durante alguns anos, mas até essas consultas passaram a ser mais um espaço de mentira. Uma mentira que estava por todo o lado na sua vida e que lhe roubava tempo e energia: se não estava a ter sexo ou a ver pornografia, estava a pensar como e quando o podia fazer. Ou pensar onde estava o telemóvel e que mensagens lá poderiam estar. Ou ainda se tinha eliminado o histórico do computador. Ou como podia justificar mais um atraso. “Parte da nossa energia mental está sempre dedicada a essas preocupações. Como aqueles computadores que estão tão cheios de lixo que demoram imenso tempo a arrancar ou a abrir um programa. Até que um dia deixam mesmo de funcionar e o problema só se resolve deitando o lixo todo fora.”

O padrão de sexo compulsivo continuou e, inevitavelmente, foi descoberto pela mulher. “Estava numa situação limite.” Na sequência de muitas tentativas fracassadas de resolver o problema, Tomás recorreu ao último dos recursos: meteu baixa por burnout e internou-se dois meses num centro de tratamento de dependências. “Pensei que, se resultava com drogas e álcool, talvez resultasse também comigo.” E resultou. Apesar disso, um ano depois, o trabalho de recuperação, é um esforço diário: continua a fazer sessões de terapia com os conselheiros do centro, frequenta as reuniões dos SAA e de outros grupos de 12 passos, como os AA e os NA. “Porque uma das coisas que percebi no centro, onde estavam sobretudo toxicodependentes e alcoólicos, foi que eu não era tão diferente como esperava daquelas pessoas: os mecanismos que funcionavam na minha cabeça eram idênticos.”

O problema da compulsão sexual, na realidade, pouco ou nada tem que ver com o desejo. “O vício do sexo não tem nada que ver com a libido, da mesma maneira que a obesidade não tem nada que ver com a fome”, ilustra a psicoterapeuta inglesa Paula Hall. Na realidade, o problema do comportamento sexual compulsivo está mesmo relacionado com sexo, pelo menos inicialmente. “É um sintoma, como todas as adições são um sintoma,” garante a especialista. “Começa por ser uma forma de evitar sentimentos negativos, mas, com o tempo, o cérebro reprograma-se para ansiar por essas atividades ou substâncias. Por isso, os vícios geralmente começam como sintomas de um problema, mas acabam por se tornar num problema em si mesmos.” Assim, o tratamento eficaz passa por desenvolver mecanismos de enfrentamento saudáveis, estratégias de prevenção de recaída, mas também significa entender e resolver a sua raiz. Formas de preencher o vazio.

Adição versus agressão

Nos Estados Unidos, quando rebentam os escândalos sexuais que envolvem políticos ou celebridades, a expressão “viciado em sexo” nunca demora muito tempo a vir à baila. Michael Douglas estreou a tendência em meados dos anos 1990, seguiram-se-lhe Hugh Grant, David Duchovny, Ozzy Osbourne e Tiger Woods. Mais recentemente, em 2016, foi a (segunda) vez do congressista Anthony Weiner – acabou condenado a 21 meses de prisão por enviar mensagens sexualmente explícitas a uma rapariga de 15 anos -, e, no ano passado, em pleno terramoto do movimento #metoo, seguiram-se o produtor Harvey Weinstein e o ator Kevin Spacey, depois de estalar o escândalo e serem acusados de assédio sexual.

Todos se assumiram como viciados em sexo e todos se internaram em clínicas de reabilitação. Há quem veja nessas confissões públicas e internamentos voluntários um “mea culpa” de pessoas que admitem um problema e decidem tratá-lo, há quem considere que estão a colocar em si próprios uma etiqueta com uma patologia para atenuar a culpa. E há quem esteja muito preocupado por tudo isto criar uma associação falsa entre a compulsão sexual e os comportamentos puníveis criminalmente.

O terapeuta sexual americano Robert Weiss é muito claro: o vício em sexo nunca é uma desculpa para o mau comportamento. “Às vezes, as pessoas apanhadas em atividades sexuais embaraçosas ou ilegais podem tentar reduzir o julgamento público e as consequências dos atos, alegando uma compulsão sexual. Pode ser que sejam realmente viciados, podem ser que não sejam. Mas, de uma forma ou de outra, são sempre responsáveis pelos seus atos”, considera o fundador e diretor clínico do Sexual Recovery Institute (SRI), com várias clínicas de recuperação nos Estados Unidos. De resto, lembra, “a recuperação passa precisamente por admitir o que se fez, assumir as responsabilidades e aceitar as consequências.”

Paula Hall reforça a mesma ideia, acrescentando que devemos afastar-nos da ideia de que os viciados em sexo são pessoas que, por norma, exercem assédio ou outro tipo de violência sexual. “Algumas pessoas viciadas em sexo podem desrespeitar a lei, mas não a maioria. Da mesma forma que alguns alcoólicos são agressivos, mas a maioria não é.” Já Júlio Machado Vaz, embora garantindo que nexos causais simplistas e as generalizações são sempre de evitar, admite que “alguém que apresenta um distúrbio de controlo do impulso mais facilmente pode desprezar a liberdade e o consentimento do outro”.

Um problema também no feminino

Para muitos viciados em sexo, Villa Ramadas é uma das últimas estações de uma viagem com muitos apeadeiros. “Passam anos em consultas, medicinas alternativas e, às vezes, até em bruxos”, conta Rita Morais, psicóloga clínica e da saúde, coordenadora clínica de Villa Ramadas, um centro de tratamento de dependências químicas e comportamentais, na zona Oeste. O centro recebe uma média de três pacientes por ano cuja patologia primária é o comportamento sexual compulsivo, mas muitos mais que o apresentam como comportamento secundário, associado uma patologia primária de dependência de drogas ou álcool.

São todos pacientes que, quando chegam muito desacreditados e num estado muito avançado da doença, são peritos a escondê-la. “Num consultório a pessoa só conta o que quer” – diz a psicóloga – “e mais facilmente admite uma dependência de álcool do que fala da compulsão por sexo. Essa é uma das vantagens do internamento: as pessoas estão aqui 24 horas por dia, sete dias por semana. Rapidamente percebemos que há outro problema além do mencionado.”

Foi o que aconteceu com Maria, 34 anos, que nasceu em França, filha de mãe portuguesa, e que vive em Portugal desde 2011, quando chegou para o seu primeiro internamento em Villa Ramadas. Esteve na clínica durante dez meses com o objetivo de tratar a dependência de cocaína e heroína e para estabilizar após uma tentativa de suicídio. Mas não foi preciso muito tempo para que percebessem que também havia outras compulsões, entre elas a sexual.

“Não tenho várias relações ao mesmo tempo, não traio as pessoas, mas não consigo ficar sozinha”, reconhece Maria. Em Villa Ramadas, tentou envolver-se com vários pacientes e foi isso que alertou a equipa para essa compulsão que Maria começou por não reconhecer, mas que hoje consegue admitir ser um problema. Os primeiros sinais surgiram pelos 21 anos: depois de terminar uma relação longa, começou a praticar aquilo que é conhecido por chemsex, ou seja, a consumir drogas, nomeadamente cocaína e ecstasy, para potenciar o sexo. “Fazia isso nas noites de sexta-feira e sábado, quando ia sair. Acabei por me envolver sexualmente com vários homens e mulheres numa noite. Na seguinte repetia.” Quando o fim de semana terminava, não sabia ao certo com quantas pessoas ao todo tinha tido sexo.

A última vez que esteve em Villa Ramadas, de maio a setembro deste ano, foi por causa de uma relação que não conseguia terminar. “Ele batia-me, tratava-me mal, mandava-me embora e eu voltava sempre, não o conseguia largar. Porque achava que ninguém me ia dar sexo assim. Porque ele conseguia ter sexo várias vezes seguidas.”

Maria confessa que idealmente teria sexo várias vezes por dia. “Três ou quatro vezes para mim seria o ideal.” Um desejo que lhe tem provocado muitos problemas na atual relação. “Às vezes, acabamos de ter sexo, eu digo que quero outra vez, mas ele não é capaz. Não percebo por que é que ele não é capaz, ele fica frustrado e eu também, porque acho que já não gosta de mim. Acabamos por ter discussões violentas.” Maria sabe que tem um problema, mas isso não é suficiente para o conseguir controlar.

De acordo com Rita Morais, esse sentimento de rejeição ou abandono é frequente em pessoas que, além da compulsão sexual, são dependentes de terceiros, uma perturbação conhecida por codependência. A abordagem de reabilitação é, nos dois casos, psicoterapêutica e passa sobretudo pela gestão desses pensamentos e sentimentos. Fala-se em tratamento, mas nunca em cura. “Quando a pessoa admite que é uma viciada, sabe que é uma viciada para o resto da vida. É uma doença crónica.”

Um combate para a vida toda

“A primeira coisa que eu faço todos os dias de manhã, quando acordo, é relembrar-me que sou um adicto”, garante Nuno, 65 anos, hoje já reformado da gestão de várias empresas. Teve um percurso que passou pelas drogas e pelo álcool e cuja recuperação iniciou já há 20 anos nos AA e nos NA. Aos SAA chegou há cerca de dois anos, quando começou a perceber que havia uma relação pouco saudável com o sexo e com as mulheres. “Houve alturas em que me relacionava com cerca de 20 mulheres ao mesmo tempo. Algumas relações eram muito conturbadas, outras até um pouco agressivas.”

O sexo e as relações fizeram parte de um padrão de dependência e compulsão mais vasto. “Acho difícil uma pessoa ser só viciada em sexo, quando isto está enquadrado num padrão compulsivo geral”, sublinha. Para ele, pelo menos foi assim. “Controla-se a droga, descontrola-se o álcool, controla-se o álcool e descontrola-se o sexo, controlado o sexo, descontrola-se a comida. Só para o jogo é que nunca me deu”.

Com experiência em tantas adições, garante que um dos problemas é que funciona com as drogas da própria pessoa: “Arranjamos maneira, com esses encontros fortuitos, de libertar as nossas próprias substâncias, a dopamina, oxitocina, a adrenalina e outras. Pedramo-nos, passe a expressão, com esse tipo de comportamentos. Cheguei a fazer Lisboa-Porto para estar com uma mulher que não conhecia de lado nenhum a 200 quilómetros/hora, a pôr-me em risco a sério. Uma coisa sem pés nem cabeça”.

Há solução, garante. E passa sobretudo por ir eliminando as coisas que são nocivas, ao mesmo tempo que se cria espaço para deixar entrar outras atividades para as quais não se tinha tempo. “Hoje em dia, apesar de não ter um relacionamento fixo e monogâmico, tenho-os em muito menor número e, sobretudo, não há uma compulsão. Dantes, se uma não podia, ligava para outra e depois para outra, até haver uma que podia. Saía de um encontro e seguia para outro encontro. Hoje, não faço isso nada disso e, para mim, é uma alteração substancial”, realça Nuno.

A recuperação de um problema de compulsão com sexo enfrenta um desafio acrescido em relação às outras dependências: pretende-se abandonar o comportamento compulsivo, mas não se pretende deixar de ter sexo. Os tratamentos e recuperações de drogas, álcool e mesmo jogo têm uma premissa muito simples: a abstinência total, sendo que qualquer consumo é considerado uma recaída. Acontece que ter sexo é normal e saudável. Por isso, a abstinência tem de ser definida de outra forma.

Para José, quase dois anos passados sobre aquele dia de abril de 2017, a luta continua, por vezes com algumas recaídas. Para ele, evitar os comportamentos compulsivos tem uma tabuada que necessita de adotar: “Não mentir, não flertar com múltiplas mulheres, não ter múltiplas relações, não insinuar que estou ali para ter uma relação se não estou. E queria conseguir ter uma relação”. Hesita e clarifica: “Ter uma relação só com uma pessoa, uma relação fixa”. E detalha de novo. “Uma relação normal.” Ri com algum azedume. “Repare como para mim é difícil dizer isto.” Sim, a recuperação é um trabalho para toda a vida. Um dia de cada vez.

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